Mas tem um porém – todo esse negócio de celulares não seria tão difícil de consertar se tantos deles não fossem parar no lixo. Uma vez descartado, o celular vai até o aterro local, onde é compactado, esmagado, triturado, e/ou incinerado até que tudo que tudo que um dia esteve guardado em segurança dentro dele seja jogado para fora e permaneça no ar, terra e água durante meses, anos e décadas.
E em grande quantidade, as coisas dentro de um celular – e nesse caso, da maioria dos eletrônicos – têm sido associados com problemas de saúde como câncer, defeitos congênitos, danos cerebrais e danos aos sistemas nervoso, reprodutivo, digestivo, linfático e imunológico. Mesmo os retardadores de chama à base de bromo que revestem a carcaça de plástico de muitos celulares, protegendo contra uma ignição acidental dos materiais dentro da carcaça, podem se tornar potencialmente tóxicos uma vez que a carcaça é comprometida.
Dito isto, um único celular jogado em um único aterro sanitário não é motivo de muita preocupação. Mas nós não estamos falando de um único celular. De quantos estamos falando? Bem…as Nações Unidas dizem que pelo menos 60% do total da população mundial tem pelo menos um. Pense sobre isso por um momento. Talvez ainda mais reveladores sejam os relatórios recentes que afirmam existir o gigantesco número de cinco bilhões de assinaturas de celular atualmente no mundo.
Agora, considere quantos desses usuários já estão em seu segundo, terceiro ou quarto aparelho e você vai começar a entender o problema. Mas a parte realmente assustadora? As estimativas mais confiáveis dizem que não mais do que 10 a 15 por cento de todos os celulares são reciclados. E esse cálculo só se aplica aos Estados Unidos. Não dá nem para imaginar como esse número varia em países onde a reciclagem é praticamente inexistente.
Basicamente, pode-se dizer com alguma certeza que literalmente bilhões de celulares foram descartados ao longo das últimas três décadas, os quais agora estão no processo de degradação.
O acumulo de tecnologia
Claro, celulares são apenas uma pequena parte de uma história muito maior – a história dos eletrônicos no final de seu ciclo de vida. A história do e-lixo.
Vamos dar uma olhada em alguns números. Existem nesse exato instante mais de um bilhão de computadores ao redor do mundo. Duzentos milhões de televisores foram vendidos apenas em 2009. Oito milhões de unidades de GPS foram compradas em 2008. Cento e dez milhões de câmeras digitais foram vendidas em 2009. A Apple vendeu 20 milhões de iPods apenas no primeiro trimestre do mesmo ano.
Na verdade, de acordo com um relatório de novembro de 2010 pelo instituto de ciências políticas Demos e escrito por Elizabeth Grossman (uma jornalista especializada em questões ambientais e de ciências e autora do “
High Tech Trash”), existem três bilhões de produtos eletrônicos atualmente em uso apenas nos EUA. Isto é um aumento de 50% desde 2007 – e uma taxa de retorno de 400 milhões ao ano.

Claramente, estes são números surpreendentes, e certamente mais provas – como se precisássemos – que nós vivemos em uma sociedade descartável. Antigamente, um objeto eletrônico como um rádio de mesa podia muito bem manter seu lugar na casa por décadas. Não necessariamente porque era melhor e mais durável do que os rádios atuais – embora muitos digam que era – mas porque não havia uma tonelada de entretenimento doméstico e pessoal além do rádio. Além disso, a evolução ocorria em um ritmo muito mais devagar. Levava algum tempo para construir um rádio, e mesmo então havia apenas algumas poucas opções para melhorar. No final das contas, simplesmente não havia muitos motivos realmente convincentes para um consumidor mudar para um modelo mais novo.
Compare rádios antigos com, digamos, o mercado de televisões da última década. Primeiro, nós descartamos nossas TVs CRT pesadas e sugadoras de energia. (A tecnologia CRT, por sinal, é amplamente considerada como um dos piores impactos ambientais de todo o mundo de eletrônicos – cada tela guarda vários quilos de chumbo e grandes quantidades de materiais tóxicos como mercúrio, cádmio e arsênico.) Então nós seguimos com a maioria e aderimos às TVs de tela plana, mas logo depois descobrimos a felicidade de alta definição de verdade em 1080p. E muitos de nós mudaram de novo. Agora, para melhor ou pior, existem as 3DTV. Tudo isso em um período de dez anos.

Agora pense sobre o tempo que você mantém qualquer um de seus aparelhos eletrônicos modernos antes de passa-los adiante, ou porque eles estão quebrados ou mais provavelmente porque eles foram substituídos por algo mais rápido/melhor. Cinco anos? Dois? Tome o iPad como exemplo. Entre o lançamento do modelo original e o lançamento do seu sucessor, completo com uma estrutura mais fina, CPU aprimorada, câmeras e outras melhorias que os Apple maníacos adoram, passou-se apenas um ano. A Apple vendeu 15 milhões do iPad original. Mas agora, para muitos, eles estão
obsoletos.
E não podemos esquecer – nem todos os produtos não utilizados são imediatamente descartados. Consumidores tendem a acumular coisas que não usam mais. Admita – quantos videogames antigos, celulares, laptops, TVs, câmeras, CD players, Walkmans, toca-discos, monitores reserva estão espalhados pela sua casa nesse momento porque você acredita ou que irá usá-los de novo algum dia (até parece), ou porque você simplesmente não sabe o que fazer com eles?
Existem muitas pessoas como você. Em um estudo de 2005 encomendado pela HP feito pela empresa de pesquisa de mercado Penn Schoen Berland, foi dito que 68% dos consumidores acumulam equipamentos de computador usados e indesejados em suas casas. Em 2008, um estudo da EPA sobre alguns eletrônicos selecionados que foram vendidos entre 1980 e 2007 – especificamente itens como televisores, celulares, computadores e periféricos, dispositivos de reprodução de imagens como impressoras e scanners– foi descoberto que mais de 235 milhões de unidades haviam acumulado em depósitos até 2007. Nós estamos dispostos a apostar alguns dólares que esse número aumentou substancialmente desde então, dado o grande número de dispositivos portáteis pessoais nos últimos anos.